>

O mito da guerra de talentos

Estamos numa era de competição feroz!

Cada vez menos existem pessoas para ocupar posições que, caso esta situação continue, não irão permitir que o crescimento no sector tecnológico...

Estamos numa era de competição feroz!

Cada vez menos existem pessoas para ocupar posições que, caso esta situação continue, não irão permitir que o crescimento no sector tecnológico avance da mesma forma que vemos hoje. Não crescendo da mesma forma, estaremos a hipotecar as nossas hipóteses de termos projectos grandes e com sucesso; geradores de crescimento!


Agora que captei a vossa atenção, gostaria de trazer-vos boas notícias: a situação não é assim tão preocupante quanto isso.

Apesar de, de facto, haver pouca mobilidade de pessoas dentro deste sector, a verdade é que a escassez de “recursos” humanos é algo que é fabricado, com o objectivo de criar especulação. Não só se considera um perfil bastante redutor para contratar alguém, mas também existe a venda de uma promessa — de um sonho. Sonho esse que transforma, em especial, finalistas de cursos superiores em pessoas “especiais”, em seres únicos. Como se fossem indispensáveis para as empresas.

Esta ilusão é criada, com conivência, por parte das universidades. Durante estes tempos mais recentes, cultivou-se a ideia de que um curso superior só é útil se permitir uma entrada no mercado de trabalho, sem grande dificuldade ou necessidade, por parte do estudante, de pensar e criar as suas próprias oportunidades. Com isso, eles tornaram-se um alvo apetecível por empresas, para contratar em massa e vender estabilidade e um sistema de progressão interna que, no papel, tem tudo para dar certo. O problema é que todos os sistemas, de uma forma ou outra, falham.

A venda desta promessa, juntamente com esta permissão pouco afincada de quem deveria proteger os interesses dos alunos faz com que as empresas envolvidas sejam pouco claras naquilo que realmente pretendem. O que fazem elas, realmente? O que pretendem elas daquela sessão? Será que as pessoas contratadas irão crescer pessoalmente com aquela experiência? Não estaremos a colocá-las numa posição em que a sua progressão na carreira poderá estar a ser posta em causa?

Como é que a “guerra de talentos” é um mito?

Não é possível propriamente falar de uma guerra se não houver diferenças entre as capacidades que os alunos têm. Todos os alunos receberam a mesma formação, foram moldados da mesma forma.

Para as empresas, isto é bastante bom. Reduz, em muito, a probabilidade de haver uma má contratação e a sua perda. No entanto, temos que considerar que, mais do que a contribuição para a empresa, deve haver um investimento na formação pessoal e profissional da pessoa que oferecer os seus serviços. Neste formato, como é tão fácil contratar quem quer que seja, elas podem estar a recusar pessoal que, a médio/longo prazo, poderia trazer mais retorno para todos, mesmo para os futuros profissionais.

Existe uma ideia bastante errada sobre a meritocracia. Possivelmente resultado do condicionamento comportamental que tem origens na revolução industrial, todos nós fomos sendo ensinados de que as pessoas que possuem o conhecimento são aquelas que são mais reconhecidas e recompensadas na sociedade. Ensinamento esse que foi reforçado pelo nosso sistema de ensino.

Lamento dizê-lo, mas não. De facto, a meritocracia por domínio de competências técnicas é algo que, já sabido desde dos anos 1930, não é assim tão comum como se pensa. Mas isso não quer dizer que ela não exista, de alguma forma. Existe sim na capacidade de estabelecer relações interpessoais de qualidade, questionando e estando sempre disponível para aprender. Competências que as universidades falham em ensinar, mesmo em áreas onde não esperamos tal inaptidão.

É precisamente essa falta de preparação que existe por parte das universidades, aliado à falta de experiência no mundo que existe fora delas que os estudantes sofrem com este facto. Situações como demonstrar empatia pela situação da outra pessoa, ter a necessidade de investir pessoalmente antes de poder tirar resultados, capacidade para negociar, para não considerar uma situação apenas por uma perspectiva — cenários em que a imaturidade, aliada à falta de preparação, poderão levar os estudantes a lugares que, na realidade, podem não ser tão bons.

Juntamente com todos estes factores, é preciso ver o que é realmente um talento. Segundo uma pesquisa rápida, um talento é:

Aptidão ou habilidade natural.

No entanto, a forma como as empresas estão a encarar a situação é a de que um talento é:

Aptidão ou habilidade confirmada e comprovada por uma insituição que tenha credibilidade social.

No fundo, os cursos superiores são apenas isso: uma forma de comprovar que se fez aquele curso. Agora, de que forma o curso foi feito? Será que é aquilo que o estudante gosta mesmo de fazer? Será que é algo que gostará de fazer, profissionalmente? Como foram as notas atribuídas?


Com isto, é necessário ter em conta mais características do que a formação académica dos estudantes, tendo em vista uma posição no mercado de trabalho. Sobretudo, a sua capacidade de estabelecer relações interpessoais com qualidade, a sua capacidade para aprender e o seu foco num futuro cada vez melhor deverão ser tidos em conta. Porque, pior do que ver pessoas saírem para um futuro melhor, é ver pessoas que estagnaram na vida a ficarem.

Vitor Santos

Software Engineering. Web & Mobile Development. UX & UI Planning. Startups Development.

More Posts - Website - Facebook - LinkedIn

Partilhe:

11 Abril 2016 | Vitor Santos