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The “Oh moment”

Estou a ter dificuldade em escrever a introdução a este texto. Escrevi e apaguei aproximadamente 10 vezes frases bonitas com “empreendedorismo”, “inovação”, e outros tantos clichés… As frases...

Estou a ter dificuldade em escrever a introdução a este texto. Escrevi e apaguei aproximadamente 10 vezes frases bonitas com “empreendedorismo”, “inovação”, e outros tantos clichés… As frases eram bonitas… Pouco mais que isso… Como nenhum de nós não está aqui para perder tempo (pessoalmente já perdi 10 minutos em frases floreadas) decidi ir directo ao assunto…

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A maioria das startups “vai ao charco” porquê? Bem a resposta é simples, ficam sem dinheiro antes de descobrirem como fazer dinheiro. Há várias razões para isto, como uma equipa fraca, falta de foco, mas principalmente porque constroem algo que ninguém quer. Yup… parece estúpido… É como o nosso governo agora resolver espalhar edifícios por Portugal em tudo quanto é terra, dar-lhe o nome “Centro de Incubação de *inserir nome de qualquer vila Portuguesa*”, sem perceber se alguém quer aquilo — espera lá…Oh

No entanto este problema não é exclusivo das startups. Muitos de nós, seja no percurso académico, ou mesmo em empresas maduras, tivemos já o prazer de desenvolver um projecto. Por norma, o primeiro passo após ter uma ideia é o de construir um roadmap ou um plano de negócios detalhado para assegurar a viabilidade do projecto. Depois, rezam as lendas, basta seguir este plano à risca, pelo meio lançar umas versões  alpha e beta e depois lá se lança a coisa no mercado, já com as nossas features todas empacotadas. Estou a ser absolutamente redutor, mas o que todos estes projectos têm em comum é Fail Loop estar no momento do lançamento–  meaning se ninguém quer aquilo que nós estamos a construir, vai tudo ao ar apenas no lançamento, ou seja uns valentes meses e euros demasiado tarde. Como diria o Mike Tyson, “toda a gente tem um plano até levar um murro na boca” — Oh…
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Estes planos são normalmente construídos, dentro de uma cave, em segredo, fechado a sete chaves para ninguém roubar a ideia e antes de sabermos os desafios reais que vamos enfrentar, assumimos que sabemos o que os nossos potenciais clientes querem, assumimos que conseguimos de facto prever o futuro com um plano financeiro todo fancy e que avançar no plano é de facto progredir… Well, that’s bullshit… Um caso bastante engraçado e muito conhecido é o da WebVan, que recebeu alguns milhões de financiamento antes de verificar se realmente alguém queria a solução que eles estavam a fornecer — Oh…

Ora o primeiro passo de qualquer projecto deve ser verificar se estamos a construir algo que alguém quer… Ou seja devemos assegurar que o problema que estamos a tentar resolver existe e se esta solução se pode tornar num negócio viável e escalável — capacidade de crescimento !!! Esta abordagem é pura e simplesmente desprezada pela maioria das pessoas! Basta olhar para muitos dos concursos de planos de negócio ou mecanismos de financiamento públicos, uma grande parte consiste em escrever um plano com palavras trendy onde apresentamos alguns pressupostos, não validados e com base em algumas métricas genéricas de algumas consultoras — fica aqui um trabalho interessante de uma dessas consultoras , não quero ser injusto , elas também fazem coisas boas — com alguns números nossos a crescer e alguém tão ou mais inteligente que nós irá decidir se realmente isto tem pernas para andar e tem potenciais clientes! Resumindo: Se no futuro ninguém quiser aquilo que estamos a criar vai tudo ao charco… E temos de arcar com as consequências, normalmente são dinheiros públicos por isso, Who cares?! Oh…

Neste aspecto um professor de Yale, em quem a Toyota se baseou para criar o seu processo de Lean Manufacturing que mais tarde viria a dar origem ao Lean Startup, William Edwards Deming tem uma frase bastante interessante “the customer is the most important part of the product line” .

Bem, isto coloca uma questão interessante… Como verificamos que estamos a resolver o problema de alguém e que a solução é um negócio sustentável e escalável? Bem, isto é basicamente a million dollar question e não tem uma resposta fácil, nem tão pouco genérica. Cada caso é um caso e cada projecto tem mecanismos e factores críticos diferentes que devem ser tidos em atenção para obter a resposta, que não são nada fáceis de determinar, muito pelo contrário, necessitam de uma análise, reflexão e visão muito bem definidas. Se querem algumas dicas de como os melhores fazem isto vejam este trabalho brutal da YCombinator, por alguma razão o slogan deles é Make something people want.

Não quero dizer que esta abordagem é perfeita, mas permite-nos minimizar o risco de perder tempo a construir coisas que ninguém quer e reduzir aqueles Oh… moments, nos quais percebemos que aquilo que estávamos a construir e o plano que estavamos a seguir pura e simplesmente não se vai concretizar…

Joao Nuno Nogueira

Physics Engineer and Innovation Manager @ IPN - Instituto Pedro Nunes in Coimbra.

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8 Julho 2015 | Joao Nuno Nogueira