Vozes da (r)evolução

“Os tempos são de crise” e, nos domínios do reclame, surgem os números a falar por si, batida ali a ciência económica e a afirmação dos que não vêem mal em repetir que “o pior ainda está para vir”. Mas permitam-me aqui uma pequena pausa para que ascenda a crise a um plano superior e reflita sobre esta convulsão – mais do que um problema de finanças do país, o que está em causa são mentalidades a mudar, mesmo na geração que se considera “à rasca” e se parece ter esquecido de que, se não for ela mesma a “desenrascar-se”, não é quem já só espera pela reforma ao fim do mês que nos virá salvar.
Para quem vive na era da tecnologia, da construção de uma aldeia global, da comunicação rápida, quarenta e dois anos parecerão demasiado tempo passado para que haja ainda termos de comparação com os discursos que se faziam nas manifestações de desagrado dos estudantes que fizeram parte do movimento estudantil de 1969, em Portugal. Mas, passados todos estes anos, o que de grave soa nos gritos de praça pública dos “revolucionários” de hoje, é que a uma pergunta sobre o que de «concreto» desejam realizar, ainda não apresentem uma resposta clara. O que o jovem de hoje, tal como o de há quatro décadas atrás, apresenta, é a simples negação de uma crise que se caracteriza com essa mesma negação. Conhecimentos não parecerão faltar aos milhares de licenciados por esse país fora e, numa época em que tanto se apregoa o espírito empreendedor, em que nunca foi tão fácil o acesso à informação, numa época em que nunca tivemos tanta gente com formação num leque tão vasto de áreas de conhecimento, parecerá irrisório que nos consideremos “à rasca” e vejamos na emigração ou no precipício a única saída. E já que os frutos das conquistas dos portugueses pelo mundo com os nossos Descobrimentos não nos valeram, que nos valha ao menos o respeito pela História e sintamos que está em nós a capacidade de mudar, de melhorar.
Esquerdas e direitas exercem a sua «política» no ataque que fazem aos seus opositores, apelando a uma mudança que acabe com a crise. Mas esmiuçados os seus discursos de oposição, pouco sobra para um ideário político com idéias concretas e propostas de solução, e certamente Aristóteles andará às voltas no túmulo com aquilo em que a sua «política» se tornou – e aqui o jovem de hoje poderá furtar-se à crítica que fiz, defendendo-se com a inexistência de um bom exemplo a seguir no quadro político português da atualidade. Mas a promoção de uma consciência social e política não será necessariamente proporcional ao grau académico de cada um, e mesmo num ensino superior que ainda não valoriza «o bastante» a liberdade criadora, os estudantes terão ao menos a liberdade de pensar – e aí teremos o trampolim para passarmos a uma geração que soube desenrascar-se na crise. Mais do que uma «rebelião de juventude» que se diz de esquerda, de direita ou de centro (e das suas esquerdas e direitas respectivas), e que está de acordo com a condição genética que fará do jovem um revolucionário*, há a necessidade de afirmação – de desejos concretos, de um plano para o futuro coerente, de propostas para ultrapassar a crise, de um projecto que se possa executar. Porque o futuro somos nós a construir o futuro, e é isto evidente.
*”Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética” – Ernesto Guevara

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