Grande Prémio Inovação BES distingue projecto baseado no funcionamento da natureza

“Drops in lotus” foi o projecto vencedor do “Grande Prémio” da sexta edição do Concurso Nacional de Inovação BES. Também distinguido na categoria de “Processos Industriais”, este trabalho da Universidade do Minho liderado por João Mano é inspirado no funcionamento da natureza, apresentando uma tecnologia inovadora que abre portas à concepção e desenvolvimento de novos produtos em sectores tão variados como biomedicina, medicina regenerativa, indústria farmacêutica, alimentar, cosmética e agricultura.

Esta tecnologia recorre ao uso de superfícies sintéticas super-repelentes a líquidos – materiais superhidrofóbicos- , baseadas em alguns exemplos encontrados na natureza, como a folha do lótus. Já foi patenteada pelo grupo 3B´s, do qual João Mano faz parte, e apresenta uma forma inovadora de produzir partículas poliméricas e hidrogéis através da deposição de gotas sobre essas superfícies repelentes, gotas essas que solidificam em partículas praticamente esféricas.

A metodologia possibilita encapsular substâncias ou células com grande eficiência, apresenta vantagens do ponto de vista ambiental e é economicamente atractiva. “Apesar de estarem envolvidos aspectos mais fundamentais, como as nanotecnologias, a ciência e engenharia de polímeros, e a física de superfícies, esta tecnologia”, é para João Mano “surpreendentemente simples e de fácil implementação industrial”.

Um exemplo de aplicação na área farmacêutica passa pela introdução no corpo humano de partículas contendo um fármaco que é libertado lenta e controladamente, evitando a administração de múltiplas dosagens. Para além disso, as partículas podem ser direccionadas dentro do corpo de forma a que a libertação de um determinado agente terapêutico seja feita num local específico.

O grupo 3B´s quer também direccionar a utilização dessas partículas na área principal da sua actividade: a medicina regenerativa. Para isso estão a ser desenvolvidas partículas utilizando macromoléculas de origem natural que possam encapsular células estaminais e factores de crescimento para serem directamente implantadas em pacientes, com a finalidade de regenerar órgãos e tecidos.

Da cosmética à medicina

João Mano foi o grande vencedor do concursoApesar  deste trabalho ter sido o grande vencedor do concurso, outros projectos também mereceram destaque em várias áreas.

Na categoria “Clean Tech”, o vencedor foi o projecto “FotOrg” (Fotovoltaicos Orgânicos de baixo custo) da Nanolayer Coating Technologies Lda, representada por Luís Ribeiro Pereira. Ainda sem aplicações existentes, o projecto vai revolucionar o uso da tecnologia nas áreas da arquitectura (projecção de edifícios, geometrias e 3D) e “gadgets wearables” (vestuário, equipamentos electrónicos, moda artística e decorativa, entre outros). O objectivo é produzir energia em pequena escala, condição essencial nestes domínios, e a um custo reduzido, tendo como base o fabrico de células solares a partir de materiais orgânicos.

O Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, representado por José Graça, foi galardoado na categoria “Biotecnologia e Agro-industrial” com o projecto “SuberLipid: Lípidos da suberina da cortiça”. Com um potencial de utilização nos campos da cosmética, farmacêutica e química fina, este projecto, tendo por base a cortiça, apresenta-se como o produto químico do futuro, por utilizar um composto de origem biológica, e assume-se como uma forte aposta para dinamização do sector corticeiro.

A empresa Acellera Therapeutics, que apresentou uma nova terapia celular para tratamento de rejeição de transplantes de fígado, venceu na categoria Tecnologias da Saúde e o prémio foi recebido por David Cristina. Criada por investigadores do Instituto de Medicina Molecular e do Instituto Gulbenkian de Ciência, esta start-up desenvolveu uma opção terapêutica que, ao reduzir o risco de rejeição, permite aumentar a qualidade de vida dos pacientes e, ao mesmo tempo, diminuir os custos dos tratamentos aos efeitos adversos deste tipo de intervenções clínicas.

Na categoria “Economia Oceânica”, uma das áreas com elevado potencial de crescimento nacional, o laureado foi o Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, representado por Ricardo Calado. O projecto FishCare pretende lançar a base para a certificação de produtos com origem na água, ao apresentar novas ferramentas moleculares para a detecção rápida de doenças em aquaculturas, e novas técnicas moleculares para a rastreabilidade de produtos nacionais de aquicultura.

Inovação como estímulo à economia

Nesta edição foram a concurso 196 projectosOs prémios Inovação BES foram hoje entregues, pelas mãos de Cavaco Silva, e propõem-se a distinguir projectos que aproximam a investigação e o conhecimento académico e científico ao sector empresarial, estimulando, de forma competitiva, o futuro da economia portuguesa, explica o Banco Espírito Santo(BES), em comunicado.

Desde a sua criação, em 2004, o concurso, contou com 1059 projectos, dos quais 33 foram vencedores, e atribuiu prémios num valor superior a dois milhões de euros. Na sua maioria, os projectos vencedores concretizaram-se em aplicações empresariais, com relevância nacional e internacional.

Concorreram 196 projectos à edição de 2010 do Concurso Nacional de Inovação BES, tendo-se registado uma maior incidência de candidaturas na área das Tecnologias e Processos Industriais (60), seguida das Tecnologias de Saúde (52), Clean Tech (41), Biotecnologia e Agro-Industrial (26) e Economia Oceânica (17).  No total, a sexta edição do concurso envolveu prémios no montante de 325 mil euros.

Fonte: Ciência Hoje

Author: Carlos Cerqueira - IPN

Director de Inovação do Instituto Pedro Nunes

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