MIT-Portugal e Projecto Bio-Teams Conversa com Carlos Faro

Contextualização  do trabalho desenvolvido e a visão sobre características-chave, comercialização e protecção intelectual para  empreendedores na perspectiva de Carlos Faro.

Em Setembro 2009 acabei o meu mestrado de Engenharia de Materiais com especialização em Biomateriais na Universidade de Coimbra. O meu interesse em expandir os meus conhecimentos em actividades ligadas a Sistemas de Bioengenharia surgiu como uma progressão natural, tendo em conta o corrente potencial que esta área de conhecimento apresenta e a margem de progressão do ponto de vista tecnológico e empresarial que existe para explorar.

O meu desejo pessoal de trabalhar em investigação tecnológica de ponta e adquirir as capacidades teóricas e de gestão necessárias para fazer face aos novos paradigmas e desafios científicos e de empreendedorismo através de inovação tecnológica, levaram-me a procurar um Programa Doutoral que me oferecesse essa possibilidade. Foi desse modo que me deparei com o programa MIT-Portugal.

Não existem barreiras capazes de isolar um projecto inovador da sua realização. Apenas precisamos de pessoas, ideias, interesse genuíno, capacidade e cooperação. O Programa MIT-Portugal oferece-me a oportunidade de desenvolver as minhas capacidades científicas e de empreendedorismo, facilitando desse modo o caminho para o sucesso pessoal e profissional. A possibilidade de tomar parte de um programa de classe mundial, trabalhar com as melhores equipas interdisciplinares em Portugal e o contacto com o conhecimento e a investigação através de docentes e colegas estudantes de uma instituição tão prestigiada como o MIT, permite-me ser parte do processo de inovação científica actualmente a ocorrer em Portugal.

Dois dos objectivos do Programa Doutoral em Sistemas de Bioengenharia do Programa MIT-Portugal estão associados à promoção de transferência de tecnologia entre Universidades e Empresas e Empreendedorismo. Um dos módulos lectivos em que trabalhei no decorrer deste ano foi o Projecto BIO-Teams. Este Projecto tem como foco principal permitir aos alunos do Programa Doutoral ter acesso a biotecnologias emergentes originárias em centros de investigação ou Universidades nacionais, levando-nos a avaliar o seu potencial mercado.

Começando em tecnologias específicas, o esforço conjunto desenvolvido pelos estudantes e pelo promotor da tecnologia é direccionado para a identificação do melhor segmento de mercado. Algumas tecnologias têm potencial para dar origem a start-ups, outras dão origem a licenças, outras ainda necessitam de regressar ao laboratório e ser desenvolvidas um pouco mais e finalmente algumas não têm o potencial para vencer no mercado, embora nos seja proposto que ofereçamos sugestões aos promotores sobre qual o melhor caminho para redireccionar a tecnologia de modo a atingir o objectivo final, a comercialização.

Ao longo deste projecto tive oportunidade de trabalhar com múltiplas instituições e personalidades da indústria, academia, direito e economia, de forma a aprender com a suas experiências e atingir o objectivo final. Foi neste contexto que decorreu a entrevista com o Dr. Carlos Faro, que aqui transcrevo e a quem muito agradeço a disponibilidade e ajuda.

Não quero deixar de referir o contributo de muitas outras pessoas para este projecto, sem o qual este trabalho não teria sido possível. O meu sincero agradecimento.

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Carlos Faro é professor associado de Biologia Molecular e Biotecnologia no Departamento de Bioquímica da Universidade de Coimbra e fundador do primeiro parque de biotecnologia português, o  Biocant Park.

Qual é a sua Ciência?
Durante muitos anos trabalhei na estrutura e função das “aspartic proteases“, particularmente as existentes nas flores do cardo que tradicionalmente são usadas no fabrico do queijo em Portugal. Mais recentemente alterei os meus interesses para o estudo das “aspartic proteases” de outras plantas, que estão envolvidas na criação de resistência às doenças e que poderão ter impacto significativo na agricultura.

O que faz actualmente?
De momento sou Director Executivo e Cientifico do Biocant e grande parte do meu tempo é gasto na gestão de todo o negócio. Estou particularmente entusiasmado com as novas oportunidades de criação de valor económico, que advêm da excelente ciência produzida no país.

Qual o seu segredo?
Ver-me como uma ponte entre dois lados opostos/duas margens.

Quais as chaves para o sucesso na ciência e no empreededorismo?
Muito treino, alguma resistência e ser capaz de ter um pensamento “out of the box”.

Quais são as três principais características, que na sua opinião, melhor definem o espírito empreendedor?
Um espírito livre, que tenha um pensamento à frente do seu tempo e que seja capaz de fazer as coisas acontecerem.

Qual seria o primeiro conselho que daria a alguém que quer ser um empreendedor?
Um especialista é alguém que cometeu todos os erros na sua área, por isso estejam preparados para falhar ao longo dos vossos percursos e apercebam-se de que se estudarem e fizerem coisas, amanhã saberão mais do que hoje.

Qual é o estágio a partir do qual podemos considerar uma tecnologia pronta para comercialização?
Quando o comprador estiver pronto a pagar o preço justo pela mesma, o empreendedor se aperceba que chegou ao ponto de retorno máximo, dadas as actuais condições para continuar o “desenvolvimento”.

As patentes são demasiado caras, será que valem o investimento?
Sim! Apesar de num país como Portugal ser preciso alguma cautela na selecção das tecnologias a patentear. No Biocant, sempre que existe uma investigação, tecnologia ou resultado promissor, pedimos aos nossos consultores de propriedade intelectual para fazerem um relatório  com uma avaliação de patenteabilidade, melhor estratégia para a protecção da propriedade intelectual, potencial de mercado para a tecnologia e algumas estratégias para desenvolvimento de negócio. No final a decisão depende desta avaliação e até agora temos sido muito bem sucedidos com este comportamento, 50% das nossas patentes já estão licenciadas.

O que pode um homem de negócios trazer para uma start-up tecnológica?
Essencialmente a sua “network” e experiência de negócio. Os cientistas pecam nestes aspectos que são importantes para dar valor económico à tecnologia.

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