De Serviços a Produtos, Parte II

Para a segunda parte desta série de posts, realizámos uma entrevista ao Dr. Rui Melo Biscaia, da Critical Software. Para os leitores que tenham lido a primeira parte desta série, repararão que as perguntas são semelhantes, isto para podermos obter de vários empresários respostas sobre o mesmo foco.

1. Que mudanças fundamentais são necessárias para mudar uma empresa com arquitectura de consultoria para uma empresa orientada a produtos? Que tipo de mudanças existem nos processos de negócio, nos cargos da empresa?

Numa primeira análise não será de dividir em dois universos distintos: serviços e produtos. Por um lado, porque há cada vez mais serviços associados à venda e consumo dos produtos e, por outro lado, porque se verifica uma tendência para a identificação do conceito de produto em prestação de serviço.

Todavia, há características intrínsecas às empresas que comercializam produtos. Essas características prendem-se, na sua globalidade, com a capacidade de assumir um break-even mais tarde, face ao investimento afecto a I&D, produção, comercialização e marketing.

A essa capacidade de investimento, que está na directa proporção do retorno que é esperado na comercialização de produtos, deverá juntar-se uma alteração de mindset em todos os sectores da empresa. Pretende-se que a agilidade na resposta a qualquer estímulo seja superior. Estímulos esses que podem ser ao nível de preço, concorrência, qualidade, atributos, mercado alvo, etc…

2. Foi realizado um planeamento extensivo de antemão para mudar para uma empresa de produtos, ou foi uma mudança que ocorreu à medida que se ia realizando o trabalho e iam surgindo as oportunidades?

Na Critical Software desenvolvemos soluções de engenharia informática orientadas à missão e ao negócio que asseguram o suporte a sistemas críticos. Temos vindo a crescer dando seguimento a uma estratégia que passa pelo balancear do mix de produtos e serviços através do investimento na reutilização e em tecnologia duplo-uso.

Oriundas exclusivamente de projectos internos e/ou resultantes de parceiras estabelecidas, temos vindo a tentar “produtizar” soluções, sempre que as mesmas se tornam maduras e observamos que respondem às necessidades de um ou mais mercados. A forma seguida para o operacionalizarmos tem passado pela constituição de empresas de produto que tentam endereçar uma necessidade específica de mercado identificada.

3. Existem diferenças fundamentais num empresário que queira fundar uma empresa de consultoria ou uma empresa de produção de bens/serviços, ou são as mesmas características essenciais?

Diria que do ponto de vista das características intrínsecas do empresário haverá que considerar a aversão ao risco como algo que faz diferir os empresários que constituem empresas vocacionadas para a prestação de serviços de consultoria por oposição a empresas iminentemente de produto.

Se isolarmos as variáveis e apenas considerarmos as características do empresário, o risco de constituir uma empresa de produto é superior à constituição de uma empresa de consultoria. O investimento é superior e o retorno é mais largo no horizonte temporal. De todas as formas, e como sempre sucede, o retorno é directamente proporcional ao risco assumido.

4. O tipo de dificuldades associadas à consultoria são as mesmas que as associadas a bens/serviços? Como problemas com orçamento, trabalhadores, entre outros? Ou existem dificuldades diferentes para cada um dos dois tipos?

Regra geral, uma empresa de consultoria é mais labour intensive do que empresas vocacionadas para a comercialização de bens. Assim, há uma pressão para que os fluxos de caixa sejam constantes desde o início.

5. No caso da Critical, existe algum factor que, se pudessem voltar atrás, teriam mudado imediatamente? Alguma mudança fundamental que tenha prioridade em relação às outras?

Somos uma empresa jovem que está num processo de aprendizagem diário. Aprendemos com os erros que cometemos e usamos esses ensinamentos para crescer e tornarmo-nos mais robustos e capazes de singrar em mercados que possuem enormes barreiras à entrada, mas cujo retorno é directamente proporcional.

Se pudéssemos alterar algo, com toda a certeza o faríamos, e de forma recorrente o faríamos. Não obstante, queremos sempre olhar para trás para melhor vermos o futuro.

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