Entrevista a Miguel Carreto, Vice-Presidente do IFDEP

Esta semana trazemo-vos uma entrevista com o Dr. Miguel Carreto, corrente vice-presidente do IFDEP – Instituto para o Fomento e Desenvolvimento do Empreendedorismo em Portugal.

1. Como vê o estado actual do empreendedorismo em Portugal?

Portugal tem vindo a registar uma melhoria significativa no domínio do empreendedorismo. Passámos de uma situação em que nos encontrávamos nos últimos lugares praticamente em todos os indicadores analisados no fenómeno do empreendedorismo (no ano de 2001) para um dos países mais empreendedores em 2007, segundo o Global Entrepreneurship Monitor. Obviamente que nem tudo está bem. O nosso empreendedorismo situa-se muito no empreendedorismo por necessidade e não tanto no empreendedorismo por oportunidade, isto é, empreende-se por necessidade e não como o resultado da identificação de uma ideia de negócio e na vontade de a explorar. Neste sentido é preciso promover o empreendedorismo qualificado que possa resultar da investigação nas nossas universidades e de cruzamentos de universidades e empresas, através de modelos conjuntos de investigação.

2. Quais as características essenciais que um empreendedor deve ter para ter sucesso?

O empreendedor tem de reunir várias características. Sou da opinião que pode ser-se empreendedor de diferentes formas, evidenciando diferentes características. No entanto alguns traços são partilhados geralmente por todos os empreendedores. Nestes podemos incluir a determinação e a elevada capacidade de trabalho e de mobilização de pessoas e recursos financeiros. Uma boa agenda de contactos é igualmente importante.

Um empreendedor tem de ser alguém determinado, mas isto não basta. É preciso possuir uma boa capacidade de análise do mundo que o rodeia. Para singrar é necessário compreender bem toda a envolvente e assim ser capaz de traçar cenários em relação ao futuro.

3. Qual a facilidade de fundar uma empresa e ter sucesso em Portugal em comparação com outros países como os Estados Unidos?

Criar uma empresa em Portugal é um processo rápido. Neste domínio foram introduzidas várias melhorias ao longo dos últimos anos. Quanto à questão de ter sucesso as coisas mudam um pouco. A nossa realidade é diferente de muitos outros países. O nosso mercado é pequeno e até há poucos anos atrás era normal um empresário não equacionar o mercado global como o seu palco de actuação. Hoje as coisas estão melhores neste aspecto. Jovens empresários pensam globalmente e criam negócios com vista a explorar o mercado global. Aqui surge uma outra questão: já não nos basta ser os melhores na nossa região ou no país; temos de estar entre os melhores a nível global. O mercado assim o impõe. Muitos negócios contudo ainda vivem à margem desta competição global (os designados bens não transaccionáveis).

Para aqueles que competem ou desejam competir no mercado global é preciso uma aposta constante no conhecimento. Não pode ser de outro modo. É assim importante uma ligação estreita e contínua entre a investigação dos nossos centros de saber às empresas e às suas necessidades.

Por outro lado, o estado Português ainda é um “monstro”, representando grande parte da nossa economia. Assim muitos negócios dependem do estado e da relação que se mantém com este. Este aspecto é extremamente negativo porque promove distorções no mercado. Do mesmo modo um estado como o nosso absorve recursos importantes aos agentes económicos sem no entanto lhes dar as contrapartidas necessárias em muitos os casos.

4. O que contribui mais para o sucesso de uma empresa: a ideia em si, ou a implementação dessa ideia?

As duas dimensões são importantes. No entanto é fundamental a figura do empreendedor. A mesma ideia de negócio pode traduzir-se em desempenhos muito diferentes consoante as capacidades das pessoas que estiverem à sua frente. Podemos assim afirmar que a ideia é muito importante para o sucesso do negócio mas se for mal desenvolvida de pouco valerá. A implementação é determinante para o sucesso.

5. O que diria aos empreendedores que precisam de uma palavra de motivação antes de darem o grande passo?

Acima de tudo é preciso analisar bem o negócio e a envolvente antes de dar o primeiro passo. Nunca conseguiremos eliminar o risco inerente a um negócio mas poderemos sempre reduzi-lo e criar cenários alternativos como resultado de alterações das principais variáveis. Depois de tomada a decisão de avançar é preciso grande optimismo, uma elevada capacidade de trabalho e muita proactividade.   Vai haver seguramente muitas dores de cabeça, muitos problemas aparentemente inultrapassáveis mas em todos estes momentos é imprescindível manter o optimismo e a determinação. Gostaria igualmente de alertar para o facto de ser muito importante na gestão de um negócio a capacidade de descentralizar. Para tal é fundamental rodearmo-nos das pessoas certas. E não esquecer: empreender produz um efeito muito positivo que resulta do facto de criar algo, com todos os esforços que isso implica.

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