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Fundar uma Ideia

Nas últimas semanas, fruto das circunstâncias, tenho pensado bastante sobre o tema que agora aqui vos trago: por trás de uma organização está (ou deveria estar) uma Ideia e quando essa Ideia é forte e transversal a...

Nas últimas semanas, fruto das circunstâncias, tenho pensado bastante sobre o tema que agora aqui vos trago: por trás de uma organização está (ou deveria estar) uma Ideia e quando essa Ideia é forte e transversal a todos os colaboradores da organização abre-se o caminho do sucessso.

Para tentar convencer-vos desta minha tese vou recorrer a exemplos.

Exemplo 1: A Igreja

A Igreja, enquanto instituição, representa milhões — de pessoas, de euros, de infra-estruturas — e milhares de anos. O que alimenta este colosso organizacional é a Ideia subjacente à sua fundação e actividade. Do ponto de vista empresarial a Igreja é super-eficiente, pois apesar dos quadros de topo nunca saírem da sede e raramente visitarem as suas sucursais, e apesar da relativa carência de middle managers, a verdade é que há um batalhão de associados que todos os dias levam a máquina para a frente, motivados pela Ideia. É natural que a competitividade neste negócio seja feroz, pois cada colaborador acredita verdadeiramente nessa Ideia e rejeita as outras, mesmo quando aliciados com bónus de fim de carreira nas empresas concorrentes (aquela história das 40 virgens). E na concorrência a gestão é ainda mais eficiente, pois operam com uma hierarquia praticamente horizontal, dispensando CEOs e afins.

Exemplo 2: O Império Romano

No seu tempo o Império Romano foi uma organização cujo sucesso esteve directamente ligado à sua Ideia. E a Ideia era simples: é bom ser romano, o resto são bárbaros. Ao longo de séculos esta empresa foi expandindo através de OPAs mais ou menos hostis e convertendo à sua Ideia os executivos das empresas concorrentes, aliciando-os com motoristas particulares e vivendas algures numa praia da Croácia. Naturalmente estas mordomias não se estendiam aos middle managers e muito menos aos code monkeys, no entanto mesmo estes beneficiavam da sua condição de romano: tinham direito a ser ouvidos junto do Conselho de Administração e, acima de tudo, havia farra à borla todos os dias, cortesia do CEO. Sem competição à altura, desde cedo o império quase detinha o monopólio da VidaCivilizada™. A força da Ideia permitiu até que esta empresa subsistisse a séculos de gestão danosa (lunática?), pois cada colaborador laborava diligentemente para defender e manter aquela que era a sua Ideia, a Ideia de cada um.

Exemplo 3: A típica startup

Hoje uma empresa começa facilmente com um punhado de amigos, numa garagem qualquer, e recorrendo aos tipos de financiamento amplamente difundidos e por vezes até facilmente obtidos em concursos. Daí para a frente os envolvidos no amadurecimento destas empresas, regra geral, partilham todos aquela Ideia que os une e os impele a atravessar o valley of death e colocar a sua empresa no topo. Os novos colaboradores desde cedo entram no lifestyle da empresa e logo convertem-se à sua Ideia, desempenhando as suas funções como se as suas vidas dependessem disso (como se não fosse verdade). Enfim, o princípio é o mesmo: “é bom trabalhar na empresa X porque identifico-me completamente com a sua visão e modus operandi, mesmo que não ganhe para os flippers da sala de jogos que lá temos.”

Exemplo 4: jeKnowledge (e outras júnior-empresas)

A jeKnowledge é uma júnior empresa que, por definição, é 100% constituída por estudantes e não tem fins lucrativos; isto é, ninguém recebe um salário. Assim, o que torna possível a existência da jeKnowledge é apenas a Ideia que todos partilham, pois só isso constitui motivação suficiente para nunca se baixar os braços, mesmo na véspera daquele exame de Física Nuclear. O combustível desta iniciativa é imaterial e ímpar; a Ideia é tão boa que faz com que dezenas de estudantes dêem o melhor de si, almejando a excelência e recebendo em troca apenas aquela linha minúscula no CV. Esta ideia manifesta-se através de uma cultura própria, contagiante e transversal a todos — uma cultura azul, futebolismos à parte. Em última análise a Ideia é mesmo tão boa que poder-se-ia pensar “se trabalham assim à borla, gostava de saber como são quando recebem.”

Bonito, não é? É a força da Ideia.

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18 Março 2010 | Administrador